1º Fórum de Transição Energética e Descarbonização aconteceu na Electric Move

No mundo inteiro, governos e empresas aceleram medidas para cortar emissões e adaptar cadeias produtivas a uma economia de baixo carbono. O tema ganhará ainda mais relevância na COP30, que colocará o Brasil no centro das decisões globais sobre clima, e já mobiliza a indústria nacional com metas, novas tecnologias e integração de cadeias. 

Nesse contexto, o 1º Fórum de Transição Energética e Descarbonização, realizado na tarde do dia 06 de novembro, na Electric Move, reuniu líderes industriais para mostrar soluções concretas de redução de pegada de carbono em produtos, processos e logística, em dois paineis. 

A palestra inicial, conduzida por Fabiano Dallacorte, contextualizou tendências como nearshoring/friendly shoring e o papel da tecnologia para entregar customização, velocidade e custo. Ele defendeu a fabricação inteligente, da biomimética a exoesqueletos e impressão 3D em metal, e mostrou como a produtividade impacta as emissões. De acordo com Fabiano, “O primeiro passo para começar a redução é a adoção de manufatura enxuta; depois, coragem para investir; e finalmente, implantação de sensoriamento, visualização de dados e manutenção preditiva”.

O painel “Cases de redução da pegada de carbono em produtos e processos industriais” trouxe quatro casos que detalham rotas de descarbonização disponíveis à indústria.

Case Randoncorp

Palestrante: César Augusto Ferreira, Chief Technology Innovation Officer

O executivo comparou ganhos de motores elétricos versus combustão e apresentou o portfólio de “produtos verdes” da Randoncorp: suporte de paralama, freio Z came, plataforma modular e sapata ferroviária, com avaliação de ciclo de vida via SimaPro. 

As metas da empresa são claras: diminuir em 55% a emissão de Gases de Efeito Estufa (GEE) até 2030, diminuir a emissão de GEE em 75% até 2035, e atingir neutralidade zero (net zero) em 2040. Na infraestrutura, a companhia instalou 102 placas fotovoltaicas em unidades e CDs e substituiu geradores a diesel por subestação de energia.

A Fras-le, uma das empresas do grupo, implementou a caldeira verde, que opera com biomassa no lugar de gás, evitando a emissão de aproximadamente 10 mil toneladas de CO₂/ano. Ao defender que “eletrificar é um caminho; descarbonizar é uma jornada rumo ao futuro”, Ferreira reforçou a necessidade de visão sistêmica, combinando eficiência, materiais, energia limpa e logística otimizada.

Case ArcelorMittal (Aços Planos — América do Sul)

Palestrante: Marcos Mayer, Gerente de Projetos de Descarbonização e Novos Negócios
Com a ambição de atingir net zero até 2050, a siderúrgica já evitou a emissão de 680 kt de CO₂ ao longo de seu histórico de projetos. O plano mantém altos-fornos em operação com adaptações tecnológicas, incluindo co-injeção de gás natural, maximização de sucata, biocarbono e energia renovável, além de captura e armazenamento de CO₂ com potencial de milhões de toneladas.

A siderúrgica também destaca a compensação como pilar estratégico para o setor siderúrgico e a liderança em certificações: foi a primeira das Américas a ser reconhecida com o selo ResponsibleSteel. A empresa também desenvolveu o programa XCarb, que impulsiona o mercado de soluções siderúrgicas sustentáveis para apoiar metas de clientes e ampliar a transparência da cadeia.

Case Tramontina

Palestrantes: Giovane Capitani, Diretor Corporativo Administrativo/CFO; Lizandra Rostellato Marin, Gerente de Sustentabilidade
Multinacional centenária, a Tramontina vem olhando para a gestão ambiental há mais de 3 décadas. Ao longo de todo esse tempo, dois projetos recentes se destacam pelo pioneirismo: o uso de Biometano (em parceria com a Ultragaz), e o Hidrogênio Verde. 

Com a primeira operação industrial do RS em funcionamento desde agosto, o uso de biometano pela empresa representa 2,5% a 3% do consumo nas plantas, visando a redução na emissão de até 310 toneladas de CO₂ por mês. Já o uso de Hidrogênio Verde, com produção e compressão na planta da empresa, conta com três fases. 

Nas fases 1 e 2, a empresa prevê a produção de 462 kg/dia de H₂ verde, o abastecimento de mais de 250 máquinas como veículos autônomos que atuam, principalmente, na intralogística, empilhadeiras e veículos industriais; uso máximo de 5,5 m³/dia de água pluvial por dia; e redução de  aproximadamente 600t CO₂ emitidos por ano. A etapa 3 do projeto visa o abastecimento no transporte rodoviário pesado.

Case Instituto SENAI 

Palestrante: Luciano Braga Souto, Especialista do Instituto Senai de Química e Meio Ambiente
Sob o mote “Como o conhecimento constrói a descarbonização”, Luciano destacou metodologias reconhecidas, como o Programa Brasileiro GHG Protocol e o ISO 14067, norma internacional que quantifica a pegada de carbono de produtos. 

Souto apresentou um caminho em três etapas para as empresas realizarem o diagnóstico de descarbonização: (1) Conhecer suas fontes de emissão e oportunidades; (2) Avaliar a viabilidade técnica, econômica e ambiental; e (3) Definir prioridades e horizontes de ação. O especialista reforçou que dados não expõem vulnerabilidades das empresas, mas constroem transparência, um atributo cada vez mais valorizado pelo mercado. 

Luciano também citou algumas iniciativas do Simecs, em parceria com o SENAI, para apoiar inventários corporativos dos associados, que visam, justamente, qualificar o diálogo com fornecedores, reduzindo assimetrias de informação e acelerando a adoção de boas práticas em toda a cadeia produtiva. 

A sessão de perguntas e respostas foi moderada por Neide Pessin, Pró-Reitora de Inovação e Desenvolvimento Tecnológico da UCS. Em comum entre os cases, apareceram rotas complementares: eficiência energética e produção mais limpa, circularidade, substituição de combustíveis, certificação de energia renovável e neutralização/compensação, além da mensagem de que a descarbonização é uma agenda de competitividade e de posicionamento internacional.

O segundo painel, “Cases de formas sustentáveis de propulsão: uso de combustíveis alternativos”, mostrou soluções de mobilidade produzidas em Caxias do Sul pela Marcopolo, Agrale e Arrow Mobility. 

Case Marcopolo 

Palestrante:  Luciano Resner, Diretor de Engenharia & Design da Marcopolo 

A Marcopolo destacou um plano de mobilidade sustentável com forte ênfase em P&D, automação e modernização fabril. Foram mais de R$ 300 milhões investidos nos últimos 3 anos e mais de 100 projetos de modernização em andamento para o próximo triênio. A empresa levará à COP30 o Volare Híbrido Elétrico Etanol, solução brasileira cuja emissão é compensada no plantio da cana que viabiliza o combustível.

No portfólio da empresa, múltiplas possibilidades como o Rail Híbrido (diesel/elétrico), Audace Fuel Cell (hidrogênio), Attivi Integral (100% elétrico), Volare Híbrido (etanol/elétrico) e Volare Fly 10 GV (GNV/biometano). O Volare Híbrido Etanol dispensa infraestrutura de recarga e tem autonomia de 450 km.

Case Agrale 

Palestrante: William Menegotto, Gerente Geral de Engenharia da Agrale

Com histórico de desenvolvimento de alternativas desde 2001, a Agrale sustenta que não há solução única, mas que a melhor escolha em combustíveis alternativos depende da matriz energética e do perfil operacional de cada país, estado e cidade. Por isso, a empresa oferece diversas alternativas como veículos com GNV, biodiesel, GLP, elétrico e biometano. Exemplos incluem micro-ônibus a GNV, tratores a biodiesel/GLP, a Marruá 4×4 100% elétrico, chassi para biometano e operações de trambus em Buenos Aires, entre outras.

Embora mais de 85% da produção de energia do Brasil seja limpa, o transporte ainda consome majoritariamente petróleo. Por isso, a estratégia é oferecer várias opções, como veículos elétricos, com gás natural/biometano e híbridos, para cada operador maximizar a redução de CO₂ com viabilidade econômica local. Em síntese, a empresa percebe a multienergia como aceleradora na descarbonização do transporte.

Case Arrow Mobility

Palestrante: Jocelei Salvador, Head de Engenharia da Arrow Mobility

A Arrow Mobility vem puxando a revolução nas entregas urbanas: o ONE, primeiro veículo 100% elétrico da marca, foi criado em 2020 e homologado em 2022, no mesmo ano em que foi lançado durante a Fenatran. Em 2023, a empresa firmou contrato com o Mercado Livre. Nos anos seguintes, realizou a primeira exportação para a Argentina e conquistou novos clientes, que incluem Amazon, Revo e BR Supply. Em julho de 2025, criaram o Arrow 2, veículo menor e mais ágil, pensado para múltiplas viagens diárias nos grandes centros urbanos, atendendo o modelo de entrega no mesmo dia da compra. 

O portfólio da empresa conta com outros três produtos, com lançamentos previstos para 2026, 2027 e 2028, que prometem entregar mais rapidez, autonomia e outros diferenciais, combinando eficiência operacional, baixas emissões, inteligência artificial e tecnologia embarcada para elevar a produtividade.

A sessão de perguntas, com todos os painelistas, foi conduzida por Rafael Granoski, Coordenador de Serviços de Inovação e Tecnologia do Instituto Senai de Tecnologia em Mecatrônica. Como consenso entre os participantes, a constatação de que os ônibus elétricos, mais modernos e conectados, atraem mais passageiros, resolvendo, também, um problema de fluxo de trânsito, já que cada ônibus substitui até 40 automóveis. 

Com relação à economia das alternativas propostas, os veículos movidos a gás podem ter payback de aproximadamente 3 anos, enquanto o elétrico tende a ter um payback maior. Nesse contexto, o biometano e modelos híbridos ganham tração. O desenvolvimento de veículos com Hidrogênio Verde em larga escala ainda enfrenta dificuldades pela complexidade de geração e abastecimento para frotas maiores, no entanto, é viável em frotas controladas e projetos locais. No Brasil, existem aproximadamente 40 projetos de Hidrogênio Verde em desenvolvimento. 

SOBRE A ELECTRIC MOVE

A Electric Move é uma realização do Simecs, com patrocínio de Agrale, BRDE, Marcopolo, Randoncorp e Sicredi, e apoio de Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee), Badesul, Cartrom Embalagens, Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul (FIERGS), Governo do Estado do Rio Grande do Sul, Grupo Idea Painéis de LED, Instituto Hélice, MobiCaxias – Associação Mobilização por Caxias do Sul, Parque de Eventos da Festa da Uva e Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae/RS).